A sua língua e a minha (1921)

A sua língua e a minha (1921)

Durante os primeiros meses que estive em Paris, não tive outra amante além de uma bolonhesa. Insisto sobre a significação altamente patriótica desta minha nobre conduta.

Mas, um dia, a minha alma burguesa e provinciana teve imprevisto impulso de ousada revolta. Quis ter, também eu, uma amante exótica; o que se pode encontrar de mais exótico em Paris. E enamorei-me de uma persa autêntica de Teerã.

Enamorei-me porque quis enamorar-me. No amor quase tudo é voluntário; até o desespero. 25 por 100 das nossas lágrimas derramadas por amor são espontâneas, mas as outras 75 são exprimidas. A saciedade também é voluntária. Quando estamos cansados de u’a mulher, quando não a amamos mais, podemos, querendo, recomeçar do princípio.

Os amores eternos não são mais do que amores recomeçados.

Obriguei-me, pois, a apaixonar-me por uma persa, e cinco dias depois me tinha apaixonado tão “perdidamente” (como se lê nos bons romances) que (exageremos! que é uso) não poderia mais viver sem ela.

Como o nome dessa mulher é dificílimo de se pronunciar, chamemo-la simplesmente “a persa”. Tinha olhos cintilantes como os fumadores de cascarilha e banhava o rosto com uma loção asiática a base de violetas e de açafrão.

O perfume das violetas, menos persistente, evaporava-se.

O de açafrão ficava, dando-lhe à pele cor de azeitona apetitoso perfume de arroz à milanesa.

***

Conhecia-a…

Um momento. Não gosto de falar de mim. Não suporto as narrações escritas na primeira pessoa: Dão-me a impressão de que o autor, expondo os seus casos e sentimentos, a cada momento tire o termômetro de baixo do braço para mostrá-lo à leitora. Façamos de conta, pois, que não se trata de mim, mas de outro, a que daremos belíssimo nome de novela: Flávio Santelso. Até, para que seja mais novelesco ainda, demos-lhe um título: barão. Há estúpidos de ambos os sexos para os quais ainda têm importância os títulos.

O barão Flávio Santelso encontrou a persa numa aula de medicina legal, na Salpêtrière. O manicômio da Salpêtrière está situado à beira do Sena, depois daquele “Jardin des Plantes” que se achama assim porque lá existem animais.

O barão Flávio Santelso entrou no anfiteatro de neuro-patologia, rumoroso de estudantes e de senhoritas que não eram “travessos como colegiais em férias”, mas quase. Pouco depois deveria entrar, como de fato entrou, a “charmante mexicaine” (danças selvagens).

A “charmante mexicaine” (danças selvagens) era loira como… (basta de comparações!) e magra, e tinha os seguintes característicos:

Fígado:    kg 1.500
Coração:  "   0.270
Cérebro:   "   1,042
Cabelos:   "   0,45

Esquecia-me de dizer que a “charmante mexicaine” estava morta. Tinham-lhe feito a laparatomia, primeiro, e a necropsia depois, e haviam-lhe encontrado uma bala de revólver desfechada na região… como se chama? Ah, é isto: desfechada à queima-roupa por um dançarino americano da “Porte Dauphine”, que se exibia junto com ela, na sala Mayol, na grande “révue d’hiver” “Tout à l’amour”, famosa pela cena do segundo ato, “lê coucher des ingénues”.

O barão Flávio Santelso, amador da medicina que freqüentava por nobre curiosidade as clínicas do Hotel Dieu e da Salpêtrière, não quis perder a ocasião de conhecer os resultados da necropsia da dançarina elegante e provocantíssima que ainda duas noites antes vira dançar vestida unicamente de uma camada de pó de arroz, alguns tufos de pêlos e uma fitinha estreita como uma aletria.

E foi justamente durante a aula de medicina legal, diante do cadáver da dançarina americana, que o barão Santelso apaixonou-se pela persa autêntica de Teerã, viva, também atraída pela curiosidade de ver um corpo humano cortado em pedaços e revistado como u’a mala na alfândega. Mas não insistamos. É preferível falar sobre a persa viva, de Teerã.

Está na moda começar dizendo como são os seios. Pois procedamos assim. Eram seios de tamanho médio, tão rijos sob a túnica de “charmeuse” que ao bater-se-lhe docemente com um dedo parece que deveriam produzir um som metálico. Tinha os tornozelos finos ágeis delgados (escolher um entre estes três adjetivos) e as barrigas das pernas musculosas e nervosíssimas, modeladas por um belo par de meias de 55 francos.

Nas orelhas tinha aros de escrava, mas nos olhos uma chama dominadora, que abrasava o redor num raio de 200 metros.

Magníficos anéis douravam-lhe, azulavam-lhe, enverdeciam-lhe os dedos das mãos. Especificamos que eram das mãos porque as persas costumam enfiar anéis até nos dedos dos pés. Mas estes não se vêem; ou melhor, Flávio Santelso não os viu ainda, naquele dia. Viu-os no dia seguinte.

A preleção durou uma hora.

Acabada a aula, um servente empurrou na direção da porta o carrinho anatômico.

Quando o carrinho dava uma volta meio brusca no corredor, o fígado, solto perto do cadáver, caiu no chão pela ação da força centrífuga, fazendo o rumor de um tapa dado com mão molhada numa cara gorda, ou por u’a mão gorda numa cara molhada. O servente levantou-o, atirou-o no corte da barriga e empurrou energicamente para a sala mortuária o leve veículo de altas rodas finas e silenciosas.

A persa lançou ainda um elhar enigmático ao cadáver, e teve um estremecimento vago e saiu. E saíram todos os estudantes, conversando e acendendo os cigarros. Saiu o professor, saiu o barão Flávio Santelso.

A persa, descendo para o ar livre, sentiu logo a necessidade de um automóvel de praça. Com efeito, à passagem de um táxi, assobiou um chamado feito de três notas. O “wattman” não se dignou voltar-se.

— Quer um automóvel? —. perguntou em corretíssimo francês Flávio Santelso.

A persa olhou-o e não respondeu.

— Quer um automóvel? — repetiu Santelso, sempre no mesmo corretíssimo francês.

A persa sorriu, tomou a expressão de quem não compreende e sorriu de novo.

— Não entende? — admirou-se Santelso. A persa fez sinal que não.

— “Do you speak English”? — perguntou Santelso, que não sabia outra coisa de inglês, com vago receio de ouvir responder “yes!”

Mas a persa calou-se.

— “Habla usted español? — Insistiu depois com o secreto terror de que ela respondesse; “Si, señor, jo hablo”

Mas a persa calou-se ainda.

— “Sprechen Sie Deutsch”? — encarniçou-se, inflexível, Santelso, temendo ainda que a mulher respondesse “ja”.

Mas a mulher não entendia nem o francês, nem o espanhol, nem o alemão, nem o inglês, porque a mulher era persa, como nós muito bem sabemos. Porém Santelso não o sabia ainda.

Soube-o uma hora mais tarde, quando na Rua Huyghens, diante da vitrina do editor Albin Michel, ela, mostrando-lhe um grande mapa geográfico da Ásia, apontou com o dedo para a Pérsia, e especialmente para Teerã, e depois, com aquele mesmo dedo, para o meio do peito, na altura dos dois seios que com fotográfica exatidão descrevemos duas páginas atrás.

Santelso esboçou um sorriso, escancarou os olhos, inclinou a cabeça diagonalmente em sinal de comprazida admiração, e disse: “Ah!”

“Ah!” em persa também quer dizer “Ah!”

Aquele primeiro passeio a dois através de Paris foi bem silencioso. Quando duas pessoas falam línguas diversas, a sua palestra não é muito numerosa, ainda que uma das duas pessoas seja mulher. O diálogo reduz-se a uma troca de impressões exteriores, nunca de idéias; é difícil que troquem opiniões, sensações, gostos, e eis tudo.

Passando por diante de uma perfumaria da Praça da Ópera que vende pós de arroz e as essências a peso, e não pelo aspecto, isto é, em vidros de farmácia e não em frascos de Lalique, estrangulados de laços e complicados de ambíguas transparências, a persa aspirou com voluptuosa expressão das narinas dilatadas e dos olhos semicerrados a revoada de perfume que saía pela porta como o sopro de um lento pulverizador apertado do interior em direção à praça.

A persa fez um movimento ondulatório da cabeça, com dilatação dos olhos, que queria dizer: “Bom, hem?”

Tomaram depois pela Avenida da Ópera. Em frente a um relógio pneumático, Santelso mostrou a hora e perguntou, sempre por gestos: “É tarde para você?”

A persa respondeu por um movimento internacional: “Não.”

Da “Brasserie Universelle” vinha um convite de pequena orquestra.

Na porta, com fácil mímica, Santelso propôs: “Vamos entrar?”

E a persa, com movimento mais fácil ainda, concordou.

Santelso, apontando para a fila de mesinhas e de cadeiras que formavam o “dehors”, hesitou se ficaria na “terrasse” ou entraria. A mulher entrou, sentou-se num sofá. Santelso tomou assento à sua direita.

Quem nunca se viu em semelhantes circunstâncias julgará que passar duas horas na companhia de u’a mulher que não fala seja um suplício. Alguns misóginos de mau gosto afirmarão que é um prazer. Pois não é nem prazer, nem suplício. É um martírio agradável.

— “Barber’s pole!” — pediu Santelso ao caixeiro. E voltando-se para a persa aguardou as suas ordens. Ela fez sina! com o queixo para o refresco que um senhor em frente a ela chupava pacientemente através de um canudo.

— “Ice-cream soda!” — explicou o caixeiro, indo-se.

Voltou quase imediatamente com os dois refrescos.

O pedido por Flávio Santelso era composto de sete camadas de licores, verde-erva, vermelho, azul, amarelo, verde-bilhar, creme, violeta, de várias densidades, que se superpunham um ao outro sem se misturarem.

Uma bebida desse gênero, na Itália, provocaria um ajuntamento na frente do café.

A persa fez gracioso sinal de assombro. Então Santelso, com galante abnegação, cedeu-lhe o próprio refresco policromo e pegou o “ice-cream soda” destinado a ela.

E chupou.

Chuparam os dois, em silêncio, cada um do seu lado (a orquestrinha tocava um ária de “Phi-Phi”); depois afastaram os lábios do respectivo canudo de palha (esterilizado) e dobraram-no com recíproco sorriso, que, sendo privado de sentido, tinha, como os quadros dos símbolistas, o mérito de prestar-se a todas as interpretações.

A persa ergueu-se, deixando as luvas e levando consigo a bolsa. Quando num café parisiense u’a mulher se afasta com a bolsa e deixa na mesa as luvas e um homem, sabe-se logo aonde é que vai: vai ao “lavabo”.

Em todo café parisiense há um lavatório para homens e mulheres, onde se encontra o necessário para escovar os sapatos, passar a roupa, olhar-se ao espelho por diante e por trás, lavar as mãos, pentear-se, limpar por dentro e polir por fora as unhas; em certos lavatórios mais elegantes encontram-se até pós de arroz de todos os tons, do amarelo ao violeta, dentifrícios e grampos invisíveis. Vi um em que havia até uma “dormeuse” para se repousar. Dando razoável gratificação ao guarda do gabinete, podia-se até ir repousar a dois de uma vez.

Ficando sozinho, Santelso pensou:

“Ser amante de u’a mulher que fala outra língua, que não entende a minha, que não pode dizer coisas banais, exprimir sentimentos baixos, fazer adivinhar aquelas pequenas misérias que há no fundo de todas as mulheres, mesmo das mulheres superiores!

“U’a mulher — pensava — que não comente para mim o seu álbum de amantes estáveis e de aventuras ocasionais; que não me ponha a par das suas paradas obrigatórias e facultativas na cama de outros homens; que não me instrua sobre o seu passado, que não me descreva as colchas e as cortinas dos quartos onde tem cedido às necessidades da sua carne ou da sua bolsa. Uma mulher de quem nada sei; pode ser uma poetisa ou uma analfabeta, uma toupeira ou uma águia; pode ser carne para sargentos ou uma “turris eburnea”; pode ter sido poluída por todos os soldados a pé e a cavalo do xá da Pérsia ou ter conservado uma castidade parsifaliana. U’a mulher que não só não me contará nada da sua vida, como ainda não me deixará entrever nada.

“As outras! Ah, as outras! Que, falando-nos dos seus amores precedentes, obrigam-nos ou a fazer de homens inteligentíssimos, que não têm ciúmes ridículos do passado, ou a fazer cenas frígidas de ciúme retroativo.

“Sentem a necessidade de confessar que não chegam puras até nós!

“Mas se a gente nem sequer pergunta isso!

“Contudo, sentem a necessidade de confessar.

“Outras — prostitutas desde o nascimento, desde o feto, do embrião — enganam-nos e gabam-se disso…

“Esta, porém, esta mulher incompreensível, dar-me-á a ilusão completa! Nesta mulher que talvez tenha desnublado o cérebro de todos os marinheiros do golfo Pérsico — exagerava Santelso — eu poderei ver uma alma de vestal. Posso depositar o escrínio dos meus sonhos nas suas mãos brancas, cobertas de anéis, se bem que eu sinta em cada anel de mulher um cheiro diverso de esperma. Se ela não mo confessar, eu não descobrirei na sua vida vestígios de outros homens. A corrente elétrica, o gás de iluminação, passando por um contador, fazem girar esferas, apontam números. O prazer, não. A volúpia, não. O prazer, a que a moral, a religião, a literatura atribuem tanto peso, é mais leve que a corrente elétrica, mais leve que o gás.

“Que felicidade não ter o bom Deus posto um taxímetro, um conta-quilômetros nas graças femininas! Por virtude desta inteligente omissão, a bela persa de quem nada sei poderá ser tudo para mim.

“Qualquer coisa que eu supuser dela tornar-se-á verdade pelo simples fato de eu supor!

“Todas as mulheres — refletia Santelso — têm temperamento de prostituta. Em todas existe a necessidade de se gabar das suas cópulas remotas ou recentes, ou, o que é pior, de deixá-las adivinhar. E deixam-nas adivinhar com uma leviandade idiota, sem um sopro de artística perfídia, deixam-nas adivinhar do modo mais ingênuo e insulso, falando três ou quatro vezes por hora do mesmo homem, do corte dos seus bigodes, do seu modo de pronunciar o “erre”, do seu talento especial para armar o laço da gravata. Quando u’a mulher insiste em falar de um homem, pode-se jurar que foi para a cama com ele.

“Esta persa — fantasiava Santelso — poderá vir todos os dias à minha casa, de volta, todos os dias, da casa de outro. E eu não saberei nunca de onde é que vem, pois nunca deixará escapar um pormenor que mo faça supor… Esta oriental indecifrável não me descreverá nunca as mãos, os sapatos, os belos feitos de ninguém. Eu nunca saberei nada da sua vida sexual: não sentirei nunca ciúmes do passado, nunca terei o receio de que durante o meu interregno em seu coração (ou no seu sistema nervoso) se entregue a outro, pois não saberei se é uma volúvel consumidora de homens ou mulher fiel a um único tipo, a um só exemplar. Conheci algumas — recordava Santelso — que, deitadas comigo na cama, tinham a serena ingenuidade de me descreverem as minúcias anatômicas, a resistência física, a reiterada galhardia dos outros.

“Esta mulher é uma novidade na minha vida.

“Eu não sei qual foi o seu cardápio variado de homens.

“Não sei que idéias tem sobre o amor, sobre o prazer, sobre o amor pago, sobre o prazer subordinado à paixão, sobre o prazer fim de si mesmo.

“Não sei quem é. Senhorita? Casada? Viúva? Vive de rendas? Rouba nos hotéis? Há alguém que a mantém? Assassinou um rico mercador do seu país? É filha de salteador? Ou descende de algum sátrapa? Ou de um bruxo? Algum dos seus avós foi general em Maratona? Ou almirante em Salamina? Seu pai será produtor de vinhos de Xiraz? Ou algum caravaneiro? Ou califa?

“O seu primeiro amante? Um barbudo cavaleiro armado de um velho fuzil tauxiado que a terá arrebatado no seu cavalo branco, e, depois de uma corrida louca pela aridez do deserto, a terá violado num oásis, entre as altas ervas aromáticas, em baixo de uma palmeira escura, que se recortava sobre o céu infinitamente azul, de onde as estrelas deixavam pingar a luz como um conta-gotas?

“Ou será uma “désènchantée” fugida de um harém, com a cumplicidade piedosa de um grande eunuco, a quem, depois, para exemplo, cortaram até a cabeça?

“No seu país terá sido cortesã? Terá dormido em todos os prostíbulos de Ispahan, de Tebris, de Abukir, onde as profissionais da volúpia têm por tálamo infecundo uma esteira semeada de rosas?

“Ou será antes — tudo é possível! — uma boa esposa que todas as manhãs invoca Oschen, o que dá abundância aos germes fecundantes, e durante o delírio venéreo murmura a fórmula: “Eu te confio esta semente, ó Sapondamad, ó filha de Ozmud?”

“Uma persa! — suspirava Santelso —. Dizem que são as mais belas mulheres do mundo. Esta, com efeito…

“É um exemplar de uma espécie que falta no jardim zoológico dos meus amores. Tive estudantes de filosofia, coristas de opereta, mulheres de amigo, amigas de minha mulher; uma inatingível dama da aristocracia negra, uma irmã de caridade de dezenove anos, uma siciliana tenaz como uma ostra e egoísta como uma esponja, uma sarda de uma honestidade que dava nojo, uma florentina que corava diante dos manequins das modistas e ia todos os dias a uma casa de entrevistas a quinze liras a consulta. Fui amante da minha institutriz; fui amante de minha mulher (antes de mim o tinham sido outros). Tive uma russa que era mulher duas vezes e uma norueguesa que o era quatro; uma holandesa que calçava nos pés dois agudos esporões de prata para me incitar no momento decisivo, e deixava-me buracos nas partes moles, como depois de longo e ineficaz tratamento de injeções reconstituintes.

“Mas uma persa — exaltava-se Flávio Santelso, barão — é o que se poderia pedir de mais pitoresco e coreográfico na comédia erótica da minha vida! U’a mulher que não fala, ainda que seja uma caixa harmônica de ressonâncias longínquas, de sentimentos complexos, de emoções doidas, de mistérios intricados, de ambigüidades lendárias! U’a mulher que será minha sem reminiscências literárias, sem hipocrisias convencionais, sem artificiosas reticências, sem mentiras de boa educação, sem lugares-comuns poéticos, que, principalmente, será minha sem obscenidade!

“A cópula não é obscena. O que a torna obscena são, às vezes, as palavras.

“As outras mulheres infligem à gente um prelúdio de conversas antes de deixarem que se lhes dê um beijo. Mais conversas antes de deixarem que se lhes desabotoe um botão. Conversas enquanto a despimos. Conversas depois que se despiram. Torrentes de palavras antes de se entregarem. Cachoeiras de palavras. Há algumas que mal acabaram a operação, dizem; “Agora me desprezarás!”, e obrigam-nos a gemer os juramentos mais lisonjeiros: “Desprezar-te? Que idéia! Podes pensar que eu… Deixa disso! Aprecio-te mais agora que te conheço melhor!” E ela insiste: “Dizes isso enquanto estás aqui, mas amanhã não falarás mais do mesmo jeito; considerar-me-ás u’a mulher como todas as outras!” E a gente: “Juro-te, meu amor, que antes…

“Literatura, literatura!

“Outras mulheres nos convidam alegremente a morrer juntos;.

“Outras fazem valer a entrega do seu corpo… As mulheres que vêm a nós por força da atração quimiotática, perfeitamente análoga à que atrai os nossos nervos para a sua carne, as nossas mucosas para as suas mucosas, dão-se ares de nos terem feito uma concessão, um dom, um holocausto.

“— Eu, afinal, — lembram — entreguei-me a ti!

“Oh, infeliz, imperfeita, sentimental língua nossa, em que, como noutras pouquíssimas línguas, a ação da cópula se chama “dar-se” quando se refere à mulher, e “tomar” quando se refere ao macho! Por esta falha da língua a mulher que “se dá” julga ter dado quem sabe o quê, e ter direito a quem sabe que recompensas!

“Eu acho que nos países em que copular se chama copular, em vez de “dar-se e tomar”, a mulher tem menos pretensões!

“Como são exasperantes as mulheres que, depois de terem sido nossas, no-lo atiram ao rosto, exigindo-nos gratidão, reclamando que suportemos os seus caprichos, as suas extravagâncias, a sua estupidez! A gratidão é a valorização de “entrega”, e todas as mulheres, exigindo um equivalente em gratidão, procuram a valorização da cópula!

“Que nojo!”

A meditação de Santelso pode parecer um pouco longa, mas tê-lo-ia sido mais se a ausência da persa se houvesse prolongado.

A bela oriental de olhos magnéticos e oblongos voltava do lavatório com movimentos odulatórios, e retomava seu lugar ao lado de Flávio Santelso. Este tomou-lhes as mãos vagamente úmidas, frescas. As unhas esmaltadas de vermelho estavam mais ensangüentadas que as de Macbeth. Santelso beijou-as. É o mínimo que se pode beijar num café parisiense.

***

No dia seguinte, de um automóvel de praça que parara no Bulevar Saint-Germain n.° 9, desciam a persa e o barão Santelso.

Este deu a mão à mulher, pagou cinco francos ao chofer, que, naturalmente, procurou em todos os bolsos, sem achar troco.

Sobre uma porta do segundo andar estava escrito: “Tournez le bouton, s’il vous plaît”. Mas Santelso não teve necessidade de tocar, porque a dona da casa já tinha corrido a abrir e exibia magnífico sorriso.

— “Bonjour, monsieur et dame!”

Na Itália as donas de pensão fazem uma careta horrível quando se leva u’a mulher para casa.

Em Paris, mimoseiam com um sorriso de contentamento.

Somos retrógrados até nisto.

A persa sabia muito bem o que ia fazer à casa de Santelso. Se Santelso pudesse dirigir-lhe um discurso, teria dito:

— Venha à minha casa. Aqui fora está tão quente (ou frio); faz tanto sol (ou chove tanto)!; a cidade é tão antipática nos domingos (ou nas sextas-feiras, nos sábados, nas segundas); na minha casa há uma deliciosa frescura (ou calor). Mostrar-lhe-ei a minha coleção de estampas antigas, de leques japoneses, de cachimbos turcos, de fetos em conserva, de pingüins embalsamados.

A mulher teria compreendido no ar que cachimbos, leques, pingüins, não eram mais que um pretexto; e teria fingido que “caía” na armadilha.

“Cair”, dizem as mulheres. Mas na armadilha as mulheres não caem nunca. Descem. Das mulheres não se abusa. Usa-se.

Quando u’a mulher aceita o convite para uma corrida de automóvel sob os plátanos ou os castanheiros, já sabe que o automóvel vai fatalmente parar diante de uma pensão que aluga quartos por hora ou de uma “garçonnière”.

A persa o sabia desde o momento em que Santelso lhe abriu a portinhola do táxi. Santelso, porém, não teve necessidade de falar das suas ricas coleções, nem da corrida poética sob as árvores dos Campos Elíseos. Deu simplesmente o próprio endereço ao chofer.

Quando chegaram ao seu quarto, a persa olhou para a cama com um gesto de terror. Todas as mulheres era casos semelhantes escancaram os olhos, como faz o condenado à morte quando, descendo do “panier à salade” vê erguer-se diante dele, no Bulevar Arago, na manhã lívida, a guilhotina.

Todas as mulheres fazem assim, mesmo as que sofreram milhares de execuções. A maior parte delas simulam desmaios, fazem-se de mortalmente ofendidas, tomam impulso para fugir, aterrorizadas, mas depois se deitam.

A persa deitou-se sem mais nada. Isto é, com ele. Com Flávio Santelso, barão.

***

Se as mulheres soubessem quanto lhes ficamos agradecidos, como as amamos mais, como as apreciamos mais quando não nos obrigam à ginástica sueca para despi-las!

Na sinceridade de sua defesa não acreditamos, à naturalidade do seu pudor não prestamos fé, pelo menos nós — os homens inteligentes —. É Santelso quem fala, não sou eu. — Não nos empenhamos em encontrar a donzela arisca e pudibunda. A donzela arisca e pudibunda pode agradar aos homens feitos em casa, educados pelos salesianos, que até aos vinte e cinco anos freqüentam os oratórios, que usam punhos redondos e botinas inteiriças, elásticos do lado. A estes homens agradam as raparigas de cérebro blindado com argamassa, que deixam formar-se teias de aranha naquelas partes que as outras, as de que nós gostamos, têm continuamente em exercício.

Nós gostamos da mulher que no entregar-se mostra a mesma impaciência com que a procuramos. Isto é, a mulher que, depois de dois mil anos de estupidez moral cristã, procede como se a moral nunca tivesse existido.

Isto é, a mulher que não liga nenhuma importância à função sobre que se construiu uma fé, u’a moral, uma literatura.

Que coisa se poderá imaginar mais maravilhosa do que esta? Reflitamos um instante! U’a mulher entra num quarto, despe-se, deita-se… lava-se, torna a se vestir, vai-se.

Esta mulher, com um gesto tão simples, desarmou u’a moral, zombou de uma fé, desprezou uma literatura!

***

Flávio Santelso não escrevia nenhum diário. Aqueles que todas as noites transcrevem no caderno as impressões e as reflexões do dia, são como os que assoam o nariz e olham, no lenço, o resultado da operação. Flávio Santelso não escrevia nenhum diário. É pena! — Seria tão cômodo para quem tem de contar-lhe as peripécias, referir algum trecho! Mas se o tivesse escrito, o diário de Santelso havia de ser, pouco mais ou menos, assim:

Paris, 2 de maio

Tornou a vir ao meu quarto. É deliciosa! As mulheres são como os perfumes. Da primeira vez não se lhes pode julgar os méritos, porque se sente muito o cheiro do álcool e do éter; mas, da segunda vez…

É u’a mulher ardente.

Incandescente.

Talvez até demais. Não sei se é costume das mulheres persas, mas no momento mais agradável grita como se eu a estivasse matando… Não sei como faremos no verão, com as janelas abertas.

13 de maio

Todos os dias é demasiado. Ê superior às minhas forças. Fiz-lhe compreender que me deve deixar um feriado semanal, o sábado inglês. Fingiu que não compreendia. Que tragédia, falaram-se duas línguas diversas!

14 de maio

Que bela coisa, falarem-se duas línguas diversas! Enquanta a aperto nos braços, grita não sei que palavras na sua língua… Talvez invoque algum dos seus amantes passados, mas eu não percebo, porque à exceção de Zoroastro, Cambises e Smerdis, não sei nenhum nome persa. Conheço também Ciro, Dario, Dates, Xer-xes. Artaxerxes, mais quem sabe lá como se pronunciam no seu pais!

25 de maio

Preciso indagar ainda por que é que naquele dia estava naquela sala, diante daquele cadáver. Se tivesse tomado parte no assassínio! A necropsia foi minuciosa e diligente, porque se suspeitava que à “charmante mexicaine” fora ministrado veneno. A persa tem olhos de envenenadora! Ou seria apenas uma amiga dela? Ou uma admiradora? Uma amante lésbica? Talvez a persa me tenha agradado por este mistério. Por que estaria lá? Mas, eu também estava. Então?

30 de maio

Os músculos das suas pernas induziram-me à suspeita de que seja uma equilibrista. Então, subi para cima da cama, espichei os braços, conservando-os rijos como se caminhasse num arame ideal.

Enquanto eu imitava o equilibrista, ela pôs-se a rir. Devia estar ridículo assim nu. Deu-me um beijo. Perdi o equilíbrio e não procurei mais saber qual é a sua profissão,

1.° de junho

Penso que sabe o francês melhor do que eu e finge ignorá-lo para evitar o aborrecimento de falar e de me ouvir falar. Talvez ela também deteste os lamartinismos e a gíria dos namorados.

2 de junho

Acho que veio aqui fazer cinematografia. Contudo, para ser persa de cinema, não é preciso sê-lo de verdade. Basta escrever nos reclamos.

3 de junho

Ao tocar-lhe a pele parece-me que acaricio âmbar, ebonite, lacre. Desenvolve eletricidade, negativa.

O seu corpo deve irradiar estranha energia. É u’a mulher radioativa.

Mas o que mais amo nela é o silêncio.

Não ouvi-la manifestar opiniões. As opiniões das mulheres! As mulheres não têm opiniões. Quando abraçam um homem, abraçam-lhe também as idéias! A mulher de um fabricante de suspensórios para hérnia, tem a convicção de que suspensórios para hérnia é a única coisa sobre que valha a pena conversar.

4 de junho

Pérsia:

Estação das rosas, nos jardins secretos de Ispahan, velha cidade de ruínas e de mistério. Pequeninas mesquitas (de altos minaretes azuis. Planuras intermináveis, sobre que andam as caravanas, dormindo no noite asiática.

Um galo que canta, ao longe; outro, menos longe, lhe responde; outro mais próximo, próximo, menos próximo, longe, muito longe, tão longe que parece uma alucinação do ouvido. E a caravana prossegue, dormindo, em direção a um castelo encantado.

Belas princesas veladas.

A lâmpada de Aladino.

Um caravanserralho. As mulas, os homens, as mulheres impenetráveis, o “tchazvadar” ou chefe da caravana, avançam. Dorme-se no capim mole… Fuma-se ópio, sonha-se,…

Tudo isto não foi a minha amante persa que me contou. Fui eu que pensei, cosendo as remotas lembranças das mil e uma noites com as de um livro de capa amarela de Pierre Loti. E me convenci de que o dissesse ela.

Se a persa pudesse exprimir-se, não saberia contar nada.

As amantes exóticas não sabem dar-nos nenhuma representação de sua pátria. Quando eu era amante da loiríssima violinista holandesa, ela uma vez me disse que aqueles queijos esféricos são pintados de vermelho só para a exportação. Em seis meses não me soube dizer outra coisa sobre a Holanda.

18 de junho

Creio que acabarei casando com a persa. É o ideal da mulher. Eu só odeio duas coisas que no fundo se tocam: a literatura e as frases feitas. Esta mulher ainda não me disse: “Sempre”.

Ainda não me disse: “Nunca”.

Ainda não ms disse : “Sou tua”.

19 de junho

Em baixo de uma fotografia a persa escreveu, uma frase. Que delicadeza!

Coloquei-a nu’a moldura de prata, na minha escrivaninha.

Tenho um amigo poliglota. Podia fazê-la traduzir por ele. Mas se fosse uma frase estúpida?

CAPÍTULO TERCEIRO

Que seja o capítulo terceiro ou quarto não tem a menor importância, visto que não numeramos os precedentes. O essencial é que seja o último.

Uma noite, a bela persa autêntica de Teerã, que o barão Flávio Santelso amava “como nunca amara nenhuma outra mulher”, quis fazer-lhe uma surpresa.

As mulheres fazem muitas vezes e de bom grado surpresas, e admiram-se de que nós nem sempre mostremos entusiasmo pelos seus achados. Elas julgam que, pelo simples fato de provir das suas mãos ou dos seus cérebros, uma coisa ou uma idéia deve encher-nos de felicidade.

A gente abomina as bengalas com castão de prata. Diz-lhe. Ela dá-nos de presente uma bengala com castão de prata e fica certa de que a gente gostará só porque foi ela quem deu.

Se a gente não fuma, ela é capaz de oferecer uma piteira de âmbar com anel de ouro e placa com as iniciais em monograma.

És mais malthusiano do que o próprio Malthus?

A mulher não deixará de anunciar com uma alegria sobre-humana: Sou mãe!

A bela persa de olhos de fumadora de cascarilha, de passado obscuro, de vida ambígua, a mulher impenetravelmenfe taciturna, que se entregou sem simulação de defesa, sem ostentação de pudor, a mulher que tinha aros de escrava e olhar de dominadora, que com a sua entrega desembaraçada domara u’a moral, zombara de uma fé, desprezara uma literatura; a mulher do perfil clássico do Irã, que durante três meses de amor nunca lhe aguara o prazer misturando-lhe caldos literários de frases feitas, um dia, quem sabe com auxílio de quantos dicionários e gramáticas, conseguiu construir uma frase em nossa língua, e disse-a ao barão Flávio Santelso.

Flávio Santelso, no dia seguinte, na estação de Lyon, despachava duas malas de roupas e um caixão de livros e tomava um leito no carro-dormitório para Roma.

A mulher que ele amava pelo seu silêncio e que teria amado quem sabe até quando, teve a habilidade de o desencantar com cinco palavras, as primeiras e as últimas palavras que lhe disse em três meses de amor.

Para, com cinco palavras, levar um homem a abandonar de um dia para outro uma cidade onde tem bom emprego, um alfaiate que lhe fia e uma amante que não lhe custa nada, é preciso que essas cinco palavras sejam bem graves!

Por exemplo:

“És o amante da tua irmã.”

Ou então:

“Tiraste-me a honra. Casa-te comigo!”

Ou então:

“A bolsa ou a vida!”

Pois não foi nada disto!

A persa disse-lhe qualquer coisa muito pior, muito mais repugnante para um homem de espírito! Disse-lhe as tradicionais palavras que dizem todas as amantes sinceras, damas aristocráticas, professoras, telefonistas, dactilógrafas, atrizes:

“Amar-te-ei…”

(Dá-me náusea reproduzi-la.)

“Amar-te-ei por toda a vida.”

Pitigrilli (Dino Segrè), O Cinto de Castidade, 1921.