Um cão infeliz (1921)

Um cão infeliz (1921)

Às mulheres que na juventude foram pródigas de si mesmas e passaram através de duas gerações semeando o prazer visual, táctil e cinestético da sua graça, resta, no limiar da velhice, um recurso. Um recurso que é como a aposentadoria e as honras para os funcionários administrativos; como a cadeira no senado para os generais que chegaram ao limite da idade; isto é, um meio, para quem foi mais ou menos brilhante na juventude, de fazer, no último quartel da vida, figura ainda decente.

O recurso para as mulheres feias e para as que não são mais belas é a moral, essa peronospora que onde quer que pouse faz murchar as flores mais louçãs. Pela moral propinam-se conferências, escrevem-se livros, consumam-se delitos, fazem-se os jovens contrair vícios secretos, inventam-se mentiras, multiplicam-se preconceitos, desnaturam-se instintos, criam-se honrarias fundam-se círculos com distintivos para os sócios, de usar na lapela, como se para distingir as conservadoras da moral não bastassem os distintivos e traços que elas trazem fatalmente impressos na cara. Mas se as causas da moralidade são a feiúra do rosto, a miséria física, a incapacidade sentimental, é preciso acrescentar que a moralidade, por sua vez, torna-se o ponto de partida de outra praga, a que daremos um nome de nosso fabrico: a “agatomania”, ou seja, a mania da bondade.

Quando se desce pela encosta do mal, nunca se sabe até onde se chegará; mas, quando se rola pela encosta do bem, chega-se às torpezas mais sinistras.

A agatomania impele o que dela sofre a desprezar, odiar, prejudicar, difamar a quem não pratica o bem absoluto, a quem não vive na renúncia mais inútil, na mais fúnebre castidade.

O agatômano, isto é, o maníaco da bondade, exaspera o seu próximo para lhe fazer bem, para servi-lo com assistência e conselho; congestiona-o de cortesias, sufoca-o com a generosidade, trucida-o com o altruísmo, pulveriza-o com o sacrifício.

Quanto mal fazem os que fazem sistematicamente o bem!

***

Dois agatômanos, marido e mulher (um pegara a agatomania da outra), voltavam para casa, numa noite de inverno, a pé.

A senhora nunca espalhara a alegria. Mas para os efeitos da moral e da sua conservação, não há diferença entre as mulheres que foram belas e não são mais e as que nunca foram; entre as que não podem mais amar e as que nunca amaram. A senhora fora educada no lar, por genitores austeríssimos, que consideravam ato de faceirice, para u’a moça, limpar os dentes mais de uma vez por semana. Aos vinte anos caiu aquela forma disfarçada de prostituição que é o casamento arranjado. Impuseram-lhe um marido que durante cinco ou seis anos seguidos a fez dar à luz um filho por ano. Cinco ou seis filhos, todos semelhantes uns aos outros, como um mostruário de copos do mesmo tipo e de diferentes tamanhos. Tinham sido tirados, todos, sobre o mesmo estereotipo. Nem traços de um amante! Nunca encontrara um farrapo de homem que a honrasse com cinco minutos de corte, ainda que fosse para rir-se dela. Depois de se ter casado com um homem que não amava, não amou a mais nenhum. Era a autêntica mulher assexual. Ou antes, não era mulher. Aquela que nunca experimentou o amor, o desejo e o desejo de infidelidade, não é mulher.

E vemos exatamente estas “não mulheres”, para as quais o amor, o sentimento, a sensualidade são linguagens indecifráveis, ditarem severamente leis em matéria de amor, arvorarem-se em juízes da literatura em que vibram os nervos, em que freme aquela sensualidade que é um dos dois motores (o outro motor é a riqueza) da engrenagem social.

Se a natureza lhes tivesse dado carnes mais provocantes e lábios mais tentadores, nunca teriam sentido o prurido de se fazerem sacerdotisas dos bons costumes.

Os cônjuges voltavam, pois, para casa numa transparente noite de inverno. O marido representava dignamente a classe daqueles homens chatos que personificam o bom-senso.

A Bondade e o Bom-senso tinham ido a uma reunião de filantropos no Bairro Latino, e não encontraram mais nem um táxi nem um auto-ônibus. De espaço a espaço os faróis das estações do “metro” espalhavam, na noite azul, tímidas luzes vermelhas. Sob a Pont des Arts o Sena corria silenciosamente. Sobre a ponte, ninguém.

Somente havia um cão.

Personagem importantíssima nesta história, em que não se referem as peripécias de humilde rafeiro, mártir obscuro, que se fez arrastar pelas ondas para salvar um homem, nem as desventuras de um pobre cão de empalhador, que se deixou morrer de inanição em cima de um túmulo.

Aqui se conta uma história muito, muito mais triste.

***

Os cônjuges Bom-senso e Bondade, moralistas e humanitários, viram o pobre cão, que junto ao parapeito da ponte dormia, ou fingia dormir, deitado de costas, com as quatro patas para cima. A lua (aquela lua que não se vê só em Nápoles, mas também em Paris) iluminava-o em pleno peito. Era um animal de raça finíssima, um buldogue inglês, de sólidas patas, de tórax robusto e com a máscara de Beethoven.

— É a terceira vez que o vejo aqui — disse o senhor, apontando para o cão —. Está abandonado, perdido. Vês como sofre? Não pode nem se mover, de fome e de frio: está naquela posição (impudica, pensou a mulher) porque é atormentado por dores reumáticas: conheço isso: quem sabe há quantos dias não come! Parece moribundo... Pobre animal! pertencia decerto a gente rica, que o tratava bem, que o nutria abundantemente; quem sabe quanto sofrerá pelo abandono! Eu acho que se o matássemos praticaríamos um ato de piedade; acabaria de sofrer... Que achas?

— Penso também que deixaria de sofrer — confirmou a senhora.

— Matamo-lo?

— Se tens coragem...

— Tenho, sim, quando se trata de fazer o bem.

— Então mata-o. Olharei para outro lado.

A senhora voltou os olhos na direção do Louvre, imersa num banho de azul, e tapou os ouvidos. Na Pont des Arts ressoou um tiro de revólver. Uma janela, na margem esquerda do rio, iluminou-se e uma sombra apareceu no seu vão; depois a sombra se retirou, fechou, apagou. Antes de se afastar, a senhora lançou um olhar cheio de piedade ao pobre animal, enquanto o marido o deixava cair no Sena.

— Era um animal infeliz. Fizemos-lhe bem.

— Sim, era um cão infeliz.

***

Duas horas antes aquele cão de máscara de Beethoven encontrara, sob os pórticos da “Comédie Française”, por trás do monumento a De Musset um cão seu amigo, um “fox-terrier” estúpido como uma rapariga honesta.

Os dois animais tinham-se aproximado, olhando-se nos olhos, e fazendo sinais por algum tempo, com a cauda. Depois um havia dado a precedência ao outro e o outro se tinha voltado, como para dizer:

— Depois de vós, senhor!

Esgotado aquilo que Maupassant chama as cerimônias maçônicas dos cães, sentaram-se um defronte ao outro, e contaram-se as suas peripécias.

O cão da máscara de Beethoven dissera:

— Tu moras na pastelaria da Rua Lépic. Reconheço-te. Parecia-me que não fosses uma cara, ou antes, um cheiro novo. Sempre nos encontrávamos quando eu e o meu criado íamos comprar na tua casa o presunto cozido do meu almoço.

“Agora não estou mais naquela casa. Consegui fugir.

“Que queres? Aquela casa não me agradava mais. Os meus hóspedes eram demasiados ricos, demasiado bons; queriam-me demasiado bem. Devam-me nojo com o seu afeto.”

— Deixavam-te lamber os pratos?

— Isso não, porque é anti-higiênico, dizem eles, deixar que os cães comam nos pratos do dono.

— Preconceitos!

— Têm razão. Eu sei de um cão que, por ter lambido o prato onde comera uma senhorita de dezoito anos, de família distinta, pegou a sífilis.

“Davam-me tudo o que eu queria.

“Não sabes quanto se está mal na abastança!

“Tinha um criado exclusivamente para mim. Dormia em coxins moles, macios, inchados, num quarto escrupulosamente aquecido, no meio de móveis finíssimos que eu me sentia no dever de respeitar, conquanto me deixassem a mais completa liberdade de escolha, entre uma peça e outra.

“Não me faltava nada. Faziam-me contrair a diabete por hipernutrição. Não havia gulodice que não me dessem. Mantinham-me a pastéis de caça, “pemmican” e “plum cake”. Mandavam vir da Inglaterra uns biscoitos especiais. Haviam chegado a eliminar em mim a coisa mais bela: o desejo. Eu não podia desejar mais nada, porque tinha tudo.

“Só desejava uma coisa, que nunca me permitiram: aventuras passageiras com cadelinhas de menor idade, que mostravam interesse por mim, quando eu levava a passeio nos Campos Elísios o meu criado. Mas um cão da minha raça — diziam eles — não pode ter “mésalliances”. E aconteceu-me o que acontece aos príncipes hereditários: estabeleceram épocas fixas para os meus amores, que eu só devia consumar com exemplares femininos da minha raça. Com este fim peregrinei de casa em casa; em toda parte onde se encontrasse uma fêmea de meu tipo, tinha eu que fazer estágios de quinze dias. Estive na casa de uma grande atriz, de um ex-presidente da República, de um embaixador, de um filósofo chinês, de uma “cocotte” célebre.”

— De uma “cocotte”? Deves ter visto boas!

— Não. Vi mais nas casas de famílias decentes. Oh, quantas coisas vi nas que freqüentei! Se soubesses como os homens são diferentes em casa e fora de casa! Tu, que vagas continuamente pelas ruas, imaginarás que as mulheres sejam, em frente de si mesmas, seres delicados, refinados, preciosos como são fora. Oh, iludido! Eu vi-as na intimidade, e afirmo-te que nunca encontrei u’a mulher, por espiritual que fosse, que na solidão do seu quarto, sabendo-se inobservada, não introduzisse no nariz aqueles dedinhos pálidos que parecem destinados a só tocar hóstias santas e pérolas reais.

“E as mulheres virtuosas? As mulheres honestas? Aquelas que o mundo chama intergérrimas porque não se conhecem os nomes nem o número dos seus amantes? Mas eu estive também na casa de mulheres virtuosíssimas, de mulheres católicas, de sócias da Liga de Moralidade Pública. Pois bem, essas não têm um amante oficial, mas quando estão sós em casa não lhes escapa nem o verificador do gás, nem o mensageiro da entrega de encomendas.

“Estive também na casa de uma parteira. Coitada, era boa! Agora passa fome.

— Por quê? — perguntou o “fox-terrier” —. Diminuíram os nascimentos?

— Não é por isto — sorriu o cão da máscara sombria —. Tu sabes melhor do que eu que as parteiras não vivem dos que nascem, porém dos que não nascem. Mas, que queres? As coisas vão mal, agora, para as parteiras, porque as senhoritas distintas aprenderam a abortar sozinhas.

Neste ponto o cão se interrompeu, afastou-se, cheirou o chão, recolheu-se por alguns segundos e depois se arredou um passo para ir arranhar a terra um pouco adiante. Fez como os literatos que escrevem em Roma e vão vender as suas obras em Milão. Depois continuou:

— Tu metes, às vezes, o focinho nos restaurantes e admiras as senhoritas que descascam elegantemente as frutas com o garfo e a a faca... Se as visses em casa! Empregam “tout bonnement” as mãos, e quando entre a polpa do dedo e a unha fica um pouco de suco, lambem os dedos.

“Que sujeira há nas famílias! Vês todas estas senhoras e estes cavalheiros que saem da “Comédie”? Eu aposto quatro frangos contra um osso que muito poucos, entre eles, estariam em condições de tirar as meias, diante de testemunhas, sem corar.

“É melhor ver os homens e as mulheres em público. Por isso eu fugi de casa. Agora durmo onde quero. Cheiro a quem quero. Freqüento as companhias que me agradam.

“Tenho o prazer de sentir, algumas vezes, fome e, portanto, a ânsia de conseguir comida, e o frenesi de roubá-la. Quando roubo um pedaço de carne de um açougueiro eu sou feliz, porque aquela carne eu a desejei e conquistei com sério perigo.

“Sou atormentado por um bando de pulgas, mas tenho a satisfação de matá-las eu, com os meus dentes, e não com as unhas de outrem!

“A incerteza da minha vida me embriaga. O risco de ser, de um momento para outro, pegado pela carrocinha me exalta.

Não correm mais a meu respeito boatos desonestos, a propósito da senhorita, uma histérica sádica e intelectual.

“Durmo todas as noites na Pont des Arts (daqui a um pouquinho te deixo, porque não quero recolher tarde), onde tomo a minha posição predileta: de pança para as estrelas e com as patas espichadas: posição comodíssima que antes a família não me permitia tomar, porque havia uma senhorita em casa.

“Não tenho mais o aborrecimento de ter que dar a mão, gesto insulso que os homens também fazem.

“Não tenho mais o enjôo do açaimo (a lei), da coleira (a escravidão) e do nome (a personalidade).

“Posso finalmente tomar a liberdade de vomitar sem ter que dar explicações ao veterinário.

“Em resumo, a minha vida de vagabundagem, a falta de um travesseiro em que dormir, a incerteza do amanhã, a solidão absoluta, o não ter mais ninguém que me queira bem, mais ninguém que me admire, mais ninguém que me proteja; sentir fome cada duas ou três horas, tremer de frio, andar ao acaso pelo mundo como um mendigo, um cigano, um ladrão, depois de ter sentido o peso da casa, da família e da riqueza, é achar finalmente a felicidade.

“Eu sou um cão feliz”.

Pitigrilli (Dino Segrè, 1893-1975), O Cinto de Castidade, 1921.