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Fora sempre fiel ao marido, porque a infidelidade traz complicações incômodas que nem sempre vale a pena enfrentar. Contudo, nunca fugira do amor… Só repelem o amor as mulheres que o amor repele; fazem como os autores dramáticos que o público pateia em todas as novas estréias, e que dizem: “Eu trabalho pela arte; não faço questão de aplausos…”

Um rapazelho terno, a quem bastava depilar o rosto róseo uma vez por semana, apaixonara-se por ela como é costume apaixonar-se a gente aos dezoito anos, quando não se tem o senso da medida e das proporções. E oferecera-lhe a sua juventude, o melhor dom que se possa oferecer a uma mulher, depois do dinheiro. Talvez a sua frescura inexperiente tivesse podido dobrar a inflexível senhora, se ele não cometesse o erro de implorar com doce timidez, com lacrimosa cortesia. A mulher nega-se sempre aos que a suplicam, julgando que para tê-la deve-se merecê-la, ser digno dela, e fazer tudo, menos uma coisa, a única que, em verdade, se deve fazer: tomá-la.

Alguns anos depois o rapazelho se tinha tornado menos rapazelho e menos tímido, e voltara com maior audácia a lançar a própria candidatura ao seu amor; mas, inutilmente. A gente conserva sempre aos olhos da mulher o aspecto sob que se apresentou a primeira vez. A primeira impressão é a única que vale. Não basta ser temerário alguma vez; é preciso tê-lo sido sempre. Não se conquista uma mulher se não a dominamos desde o primeiro momento. Acontece como nos duelos a arma branca, para quem, tendo recebido uma preparação apressada, só conhece um golpe. Se não acerta da primeira vez que o tenta, não o tente de novo, e resigne-se a perder.

O segundo homem que atentou contra a sua integridade de mulher honesta e fiel foi um que tinha todos os requisitos para triunfar. Entre outros, aquela dose exata de estupidez que é indispensável para ter sorte com as mulheres. Mas cometeu um erro. Um grave erro. O de prometer-lhe amor eterno.

Em 1920 não há mais uma única mulher que deseje o amor eterno, nem mesmo entre as que sempre viveram em cidades de menos de 50.000 habitantes. O amor eterno, com todas as suas ignóbeis complicações de fidelidade, de ciúme retrospectivo, de sinceridade absoluta, é um programa desanimador. À mulher de hoje não se prometem amores a prazo longo, mas aventuras de rápida solução. Se se quer ter certeza de sucesso, acabada a declaração de amor e a comovente peroração, é preciso concluir:

“… e depois te deixarei em paz; não te importunarei mais; seremos dois bons amigos, se quiseres; se não quiseres nem isso, farei que nunca mais saibas notícias minhas…”

***

Assim disse, com efeito, à senhora o pintor escandinavo Schfernzhk (pronuncia-as Sehfernzhk).

Entre o dia em que as mulheres nos advertem: “És ainda demasiado jovem” e aquele em que nos desenganam: “Já és demasiado velho”, medeia apenas um momento. Naquele momento preciso da sua vida se encontrava o pintor Schfernzhk quando fez a corte à senhora, cujo nome calaremos. Neste gênero de história nunca se é suficientemente discreto, ainda que, como no caso atual, a mulher nunca tenha existido.

A senhora *** era esposa do professor ***, docente de glotologia, membro de várias academias, e autor de muitos quilogramas de obras eruditas. Os estudiosos deste gênero são criaturas que trabalham toda a vida na solução de nós que ninguém tem interesse por ver desatados; gente que perde os anos e a vista em roda de um pergaminho, uma epígrafe ou um terceto, publicando volumes, sem que a civilização, a arte, o pensamento avancem um milímetro. São como aqueles velhos copeiros de café que percorreram milhares de quilômetros, sem nunca terem caminhado cem metros no mundo.

O marido-professor não era homem divertido. E muito menos belo: tinha a orelha pitecóide como Mário Bonnard, e possuía enorme nariz, barriga grande e pés pequenos. Parecia a imagem de um homem normal refletida por um daqueles espelhos convexos em que ficam desmedidamente aumentadas as partes do centro e do primeiro plano. Usava sempre uma gravata de um amarelo sensacional. Uma medalha de ouro com a efígie do penúltimo papa que lhe pendia sobre a região abdominal.

Não enganar um homem como aquele teria sido ofender a Deus.

O professor *** era feio e repugnante, não porque fosse professor nem porque fosse marido, mas porque era assim mesmo. É bom desfazer os equívocos. Contra os professores e contra os maridos eu não tenho prevenções. Pelo contrário…

Ele não era muito pródigo de ternuras para com a mulher. Ministrava-lhe o amor metodicamente, a colherinhas. E conquanto a senhora fosse de sobriedade exemplar, aquele amor para crianças não lhe bastava.

O amor é determinada quantidade de matéria imponderável, invisível, que se acumula em certos indivíduos quando encontram certos outros do sexo oposto, e que se vai esgotando durante o período da relação. Uma vez esgotada, não há mais maneira de fazer novo sortimento, de regenerá-la. Um amor defunto não ressuscita. Quando ressuscita é porque não era defunto.

O professor, quando era moço — os velhos professores também já foram moços, alguma vez — tinha amado muito a esposa juveníssima; agora, porém, tinha consumido a sua provisão de amor.

Mas a provisão de amor da mulher estava ainda intacta. E porque estava intacta desde muito tempo, um belo dia ela sentiu a necessidade de dissipá-la. O amor e a beleza são como o dinheiro, que só vale na medida em que se gasta ou se dá.

O pintor Schfernzhk chegou exatamente no momento em que a senhora, enfastiada do marido, se dispunha a gastar todas as suas riquezas românticas.

Chegar a tempo. Eis o segredo. A ocasião faz o homem furtar e a mulher deixar-se furtar.

***

O acaso, essa combinação de circunstâncias fortuitas que os otimistas chamam sorte e os paralíticos chamam destino, fez encontrar-se a senhora *** e o pintor escandinavo num daqueles salões de arte e de literatura. Os salões chamados intelectuais.

O pintor vestia trajo esportivo de lã cinzento-clara, com grandes bolsos em sanfona e cintura estreita, e tinha em sua companhia um cão de focinho preto, comprido e fino como uma pistola Browning e o pescoço imobilizado numa coleira larga, como aquela que usa eternamente Clementina da Bélgica.

A senhora estava vestida de vermelho e negro como um vaso etrusco, e uma grossa coroa de rosário, antiga, de marfim, marcava-lhe a linha equatorial em torno da cintura.

As pernas — será preciso dizer? — eram modeladas por meias de seda, lúcidas e transparentes como alusões.

A senhora elogiou os quadros do pintor, que nunca tinha visto; o pintor elogiou a senhora, cuja beleza e elegância tinha mil vezes admirado, se bem que a visse por primeira vez naquele dia. A senhora, com licença da dona da casa, ofertou um pouco do seu chá com leite e biscoitos ao cão, que em menos de trinta segundos “mostrò quanto potea la lingua nostra” (é preciso citar de vez em quando os grandes poetas!)

***

Esgotadas as bebidas e as conversas, o pintor, o cão e a senhora saíram. No auto a senhora disse que seu marido, o professor de glotologia, era para ela uma daquelas sombrinhas que não são nem guarda-sol nem guarda-chuva, que os franceses chamam “en-tout-cas”, porque se usam quando faz bom tempo, quando chove e, nos casos intermédios, servem para apoio ou para se enxotarem os bichinhos que surgem na estrada.

Mas que, apesar de reconhecer quanto é útil um marido, ela não o amava.

Declarou ao pintor que estava disposta a conceder-lhe a sua amizade. Quando uma mulher oferece a sua amizade, é como se entregasse a chave do seu cofre sentimental.

O cão conservava discretamente o focinho fora da portinhola.

***

O professor tinha a sensação de não ser o amante ideal da sua esposa. Compreendia que tinha direito ao seu amor. Sentia-se como aqueles passageiros que têm bilhete de terceira classe e sentam na primeira, um pouco sobre a beira do banco, com o olhar no corredor, esperando de um momento a outro que um passageiro de acordo com o regulamento ou um fiscal o ponha para fora. E até se admirava de já ter conseguido safar-se num tão longo percurso. Mas não sabia, contudo, dominar o seu ciúme.

— Meu marido é desconfiado como um guarda de alfândega — dizia no dia seguinte, num café ao ar livre de Vila Borghese, a senhora bela e elegante ao pintor escandinavo —. Seria capaz de me espiar, de fazer-me seguir por um polícia particular. No palacete em que você mora não há uma modista, uma adivinha, uma manicura. Como se pode, sendo moço e interessante como você, morar numa casa em que não existe nem ao menos um consertador de porcelanas quebradas?

— E se eu encontrasse um apartamento escondido, quase seguro, você iria lá?

— Não digo que não.

— Mas tampouco diz que sim. Iria?

— Iria.

— É muito difícil, você sabe, encontrar-se casa neste momento. O meu amigo Toddi, para encontrar quarto, perguntou à delegacia o endereço de um sujeito que se enforcara ontem de manhã. Este era só no mundo — pensava Toddi —. Deixará livre um apartamento… Mas na delegacia informaram-lhe que o tal senhor se enforcara por não poder achar casa.

— Um homem que ama vence todas as dificuldades.

— Até as urbanísticas?

— Experimenta.

E o pintor escandinavo experimentou, publicando num jornal da manhã um anúncio:

“Garçonnière” elegante, banho, duchas, luz elétrica, calefação. Senhor sério procura. Ofertas a…

E esperou três dias inutilmente. Os anúncios nos jornais da manhã são ineficazes porque, julgando que todos os outros os leiam, ninguém mais os lê.

Um amigo deu-lhe um endereço. Correu para lá.

A casa não teria sido inaceitável se na arquitrave não houvesse gravado um augúrio: “Pax huic domui et omnibus habitantibus in ea”.

Como é que se vai convidar uma mulher para fazer uma loucura numa casa tornada funesta por uma inscrição latina?

***

Transcorreram muitos dias e em cada um deles a senhora perdia uma partícula de confiança na perspicácia do jovem pintor. Mas, antes que tivesse o tempo de perdê-la toda, aconteceu um fato novo no seu “ménage”: o professor, antes de sair para a universidade, recebeu um telefonema anônimo (a carta anônima pertence já à pré-história da denúncia) em mau italiano, com sotaque estrangeiro.

E à tarde o pintor escandinavo, mergulhado numa poltrona macia, no quarto de dormir da senhora, escolhia um cigarro perfumado numa grande caixa de cristal, em que se confundiam os loiros “Gold Flake” e os delicadíssimos “Kaliniki”, enquanto a senhora queimava uma barra de resina odorífera bengalesa, sorrindo de admiração satisfeita pelo audaz e bizarro expediente do setentrional enamorado.

O quarto era num estilo indeciso entre o Luís XVI e o Império. Nos espaldares das camas irmãs, dois pares de pombas em alto-relevo beijavam-se com desolação, como se lamentassem não ter pedido um emprego no Departamento dos Correios e Telégrafos, na qualidade de pombos-correios.

A senhora tinha os olhos azuis como a chama do ponche. Era a primeira vez que o pintor lhos contemplava de só a só.

Que teria acontecido depois naquela casa, não se sabe. Provavelmente terão fincado aquilo que Sainte-Beuve chama o prego de ouro da amizade. Talvez não tenha acontecido nada. A senhora era sentimental como uma garrafa de água mineral, apesar de trazer o rótulo de licor venenoso.

Mas o que é certo é que das quatro às sete, durante o tempo exato que o pintor passou no quarto da senhora, o seu marido, o professor de glotologia, membro e correspondente de diversas academias, armado de uma gravata de um amarelo fulminante, dava voltas, inquieto e congestionado, numa rua deserta dum bairro distante, para surpreender a mulher no momento de entrar ou de sair de alguma porta suspeita, conforme lhe insinuara o telefonema estrangeiro e anônimo da manhã.

Pitigrilli (Dino Segrè), O Cinto de Castidade, 1921.

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